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Documentário "Você Não é um Soldado" destaca os obstáculos da cobertura jornalística em zonas de guerra

Por Redação em 04/12/2021 às 11:25:19

Tensão, tiros frenéticos, perigo iminente, como é viver em meio a guerras e conflitos em nome da notícia? O documentário “Você Não É um Soldado”, dirigido por Maria Carolina Telles, acompanha o trabalho do premiado fotojornalista André Liohn, que já fez coberturas em países como Iraque, Afeganistão, Somália, Líbia, Congo, Síria, Venezuela, Tunísia e Egito. Em entrevista à Jovem Pan, o jornalista disse que acha estranho se ver como tema central da produção, pois sua intenção sempre foi noticiar os fatos. Por outro lado, ele entende a relevância de retratar como é espinhosa a missão de conseguir mostrar ao mundo o que acontece em áreas de guerra. “Estamos passando por um momento em que o jornalismo está sendo muito atacado, está sendo muito desacreditado, as pessoas com poder querem desmoralizar jornalistas, independente de visões políticas, pois se sentem incomodadas com nosso trabalho. O filme documental mostra o quanto é difícil produzir informação, os preços que temos que pagar e os riscos que aceitamos para a informação ser passada com qualidade.”

Um barulho constante de tiros domina o documentário e o que se vê em André não é medo, mas uma ânsia por registrar cada momento. Em certa parte da produção, ele quase que implora para um soltado deixar ele chegar perto de uma área de risco, mas é impedido por não ser um soldado. “Eu suporto aquilo. Tenho uma resistência grande ao medo e à pressão emocional. Fico concentrado em tudo o que está acontecendo porque as imagens precisam ser contextualizadas, isso é o jornalismo. Sempre mantive meu foco, se eu não fosse capaz de fazer isso, eu não seria a pessoa certa para estar lá”, comentou. Mesmo passando por vários campos de batalhas, André afirmou que o trabalho mais difícil emocionalmente que enfrentou não foi em um cenário de guerra e não está presente no documentário. “Fiz um trabalho recente no Panamá e lá existe uma floresta que é uma rota migratória. As pessoas estão tentando atravessá-la para chegar aos Estados Unidos. Elas vão a pé por cerca de uma semana sem nenhum treinamento, sem equipamentos e, pior ainda, sem nenhuma chance concreta”, contou.

Pai de André Liohn

Foto que André Liohn tirou do pai é seu maior orgulho – Fonte: Arquivo Pessoal/André Liohn

André, que atualmente tem 47 anos, nunca foi fissurado em fotografia e a carreira como fotojornalista começou quando tinha 30 anos. “Sempre me interessei por contar histórias, mas era formado em comércio exterior, vivia na Noruega e trabalhava na área. Mesmo sentindo que o comércio exterior estava satisfazendo a minha curiosidade de saber sobre o mundo, pois viajava muito, ele não me aproximava de temas que eu me preocupava, como questões migratórias e conflitos que não entendia por que estavam acontecendo. O método que encontrei para isso foi a fotografia e, lentamente, eu fui entendendo que tinha aptidão para isso”, falou.

O fotojornalista esteve em várias partes do mundo e contou muitas histórias por meio de suas imagens, mas a foto que André tem mais apego é uma que tirou do seu pai, José Garcia de Oliveira. “Estávamos em Rubião Junior, em São Paulo, onde eu nasci e passei minha infância, que foi conturbada, difícil e num ambiente hostil e pobre. Fiz uma foto do meu pai após ele me dizer que mesmo depois de tudo o que ele passou lá, ele gostava e queria preservar aquele lugar. É uma foto que tenho bastante orgulho, sinto que com ela eu pude me pacificar com meu pai, pude sentar com ele e ouvir seus motivos, seus problemas e consegui enxergar ele como um ser humano que fez o seu melhor ao invés de ficar julgando ele como se eu fosse um filho egoísta.” A relação do jornalista com seus pais também está presente no documentário “Você Não É um Soldado”, que em breve estará disponível na HBO Max. André está passando uma temporada no Brasil e prepara um workshop para os próximos dias 6 e 10 de dezembro na Galeria Metrópole, em São Paulo. Para saber mais detalhes e para participar, basta entrar em contato com ele pelas redes sociais.